#6 – O melhor amigo do homem!

“Os cães fazem parte da vida dos humanos. Mas para os cães, os humanos são a sua vida!“

A Lady ama absolutamente viajar! Estas últimas 24 horas foram vividas tão intensamente, que a adrenalina subiu com a azáfama dos preparativos para um fim-de-semana alargado que nem apresentamos ainda esta amiga de quatro patas. Esta cadela é simplesmente divinal, adora viajar e assim que sente alguma movimentação nesse sentido não mais pára numa agitação irrefreável. Seja qual for a aventura, está sempre pronta!

A nossa Lady, uma elegante pastora alemã, dourada preta, é muito inteligente e robusta, e acima de tudo muito calma e fiel, não esquecendo o quão é de obediente. Muita ligada à família e muito protetora da nossa filha Carminho. A sua casa é no quintal, mas sempre que pode esgueira-se para dentro da nossa. Adora jogar à bola e fazer exercício físico no campo e na praia, correr na areia ou dentro de água e obriga-nos a fazer também, acreditem. E no final uma boa escovadela ao seu pelo fá-la vibrar de emoção e contentamento. Gosta de ser estimulada a fazer truques e brincadeiras, obedecendo ao comando de voz.

Veio para nossa casa ainda bebé, com a nossa filha também bebé. Tem agora 5 anos. Mas o vínculo criado entre elas é fortíssimo, parecem uma só. Se a Carminho está triste, a Lady percebe e interage logo, ou brinca ou deita-se ao lado dela com a cauda a abanar, muito dócil com a cabecinha em cima do colo dela, como que a dizer estou aqui, não estejas triste – é a terapeuta da Carminho, sempre pronta para um abracinho sincero … ahahah.

Devo confessar que os primeiros meses não foram fáceis com a cachorra a morder em tudo o que podia e não podia. De noite chorava imenso, não queria estar sozinha, respeitamos o seu tempo de aprendizagem e com amor tudo se resolveu. Fomo-nos adaptando e ela crescendo e tudo passou e hoje o amor que sentimos é idêntico ao que se sente por um ser humano e retribuído com muito afeto e doçura.

Fazendo justiça ao propósito da sua raça, de caráter nobre, leal e fiel ao seu dono, a Lady nunca deixa a sua dona sempre que pressente alguma dor, mágoa ou até mesmo zanga naquele pequeno corpinho da Carminho. É enternecedor ver como fica aflita e como se deita ao seu lado ou anda atrás dela (que nem cachorro), em modo apaziguador, como que a dizer não te preocupes estou aqui contigo.

Em 5 anos de convívio, muitas histórias se poderiam contar, mas a que recordo com alguma intensidade, é aquela em que encontrei a Carminho prostrada no chão do quintal e cheia de febre, não fora o ganir da cadela que corria desenfreadamente de um lado para o outro como que a chamar a nossa atenção e que por instantes sem saber o verdadeiro motivo me deixou louca de irritação, mas cuja ação foi prodigiosa. Foi sem sombra de dúvidas uma prova de amor, não só o pedido de socorro como nos dias subsequentes, manteve-se deitada no chão ao lado da cama dela até ela não precisar mais de cuidados, num sofrimento constrangedor. A alegria voltou após as melhoras da sua dona – era vê-las felizes e brincalhonas.

E ainda uma outra, tão real quanto a primeira história. O nosso quintal tem várias árvores de fruto, incluindo duas figueiras. Logo pela manhã a mãe ia apanhar figos e tinha por hábito subir às árvores. Eu e o meu marido ajudamos mas tínhamos de ir trabalhar e ela lá ficou na sua tarefa. As portas estavam abertas e de repente a cadela entrava e saía a correr a ladrar sem parar, chegava ao pé de nós dobrava as patas da frente e de seguida pulava e disparava a correr para o quintal, como que a alertar para algo. Eu sem perceber que a Lady não me estava a chamar para a brincadeira, zangada fui atrás dela para a castigar, pois a Carminho dormia, foi quando encontrei a minha mãe no chão. Os ramos da figueira tinham-se partido e ela veio por aí abaixo junto com os ramos, ficando inanimada. Sorte a dela que lhe amorteceram a queda e acabou apenas com uns arranhões e umas nódoas negras. Mas saber que a nossa cadela é nossa protetora e que nos avisa em caso de perigo ou acidente, deixa-nos tranquilos e felizes – em resumo, às vezes vale a pena perder alguns instantes para tentar interpretar a mensagem que o melhor amigo do homem nos quer transmitir.

A sociabilidade entre cães e humanos é bem demonstrativa da amizade entre eles. A dar razão ao que todo o mundo afirma que o cão é o melhor amigo do homem também será verdade que o homem é o melhor amigo do cão.

E agora feitas que estão as apresentações aí vamos nós para mais uma aventura e companheirismo entre família e amigos, não esquecendo evidentemente a amizade canina.

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#5 – Vão numa … Pão de Forma … Ups!

Em viagem de autocaravana! Podemos dormir, passar férias e fins-de-semana em qualquer sítio e a qualquer momento decidir partir sem preocupações de alojamento.

Almoço terminado, fome saciada, conversa sentida, roteiro até agora cumprido … hora de seguir viagem em direcção ao nosso destino.

Os nossos amigos Luís e Carlota Santos vão numa carrinha Pão de Forma, atrás de nós, em fila indiana. Estes nossos amigos são um casal incrível, ele tem 39 anos e ela 41. São nossos companheiros de outras viagens, óptimos para conhecer novos sítios e adoram aventuras. Com eles a boa disposição reina e contagiam os demais. É muito fácil viajar com eles, são tolerantes e flexíveis, bem-humorados, excelentes convivas e parceiros de viagem. Tentamos ao máximo estar em grupo mas nada impede de se programar um passeio separado, ninguém precisa de ficar 24 horas por dia juntos. A confraternização fica para mais tarde sem qualquer azedume ou constrangimento de alguma das partes, numa salutar convivência.

É sexta-feira. Na estrada sente-se a excitação de um fim-de-semana alargado. Vamos devagar, não temos pressa de chegar e queremos usufruir das vistas quer a bordo da nossa “Vana” (diminutivo de autocaravana) quer a bordo da “Bimbo”, nome de uma marca de pão de forma (comestível).

As crianças deliram com a “Bimbo”, uma carrinha laranja torrado, cheia de pinturas coloridas, da Volkswagen, dizem que tem estilo e sempre que vão na Pão de Forma dão pulos de contentamento. Gostam de dizer aos amigos que vão fazer uma “road trip” na Bimbo, acham o máximo.

Completamente restaurada e transformada num carro-casa, ou melhor, numa tenda de campismo ambulante mas com rodas, inclui um chuveiro de campismo, um fogão tipo camping gaz, uma mesa de picnic e outros acessórios, não esquecendo uma cama para dois e os famosos sacos cama. Tudo feito por eles. Eles adoram bricolage e pintura, por isso andam sempre a restaurar e do velho fazem novo.

A decoração no seu interior, bastante colorida e criativa, é inspirada na série de desenhos animados “A carrinha Mágica”, uma série que conta as aventuras de uma professora e as peripécias que os seus alunos vivem, e que a Carlota devorava em pequena. Como ela costuma dizer quando se refere à sua meninice: “sentia-me a viajar pelo espaço, ou no interior do corpo humano, até debaixo de água se andava, era um apelo ao meu imaginário e ao mesmo tempo didático, pois aprendia sempre qualquer coisa”.

Adquiriram-na há cerca de 5 anos e desde aí não mais pararam. Descobriram que podem dormir, passar férias e fins-de-semana em qualquer sítio onde gostem de estar, a qualquer momento podem decidir partir sem preocupações de alojamento. Usufruir desta liberdade, pôr e dispor a seu belo prazer é fundamental para um estilo de vida muito próprio.

Em certa medida, são eles os responsáveis por comprarmos, a nossa “Vana”, já lá vão dois anos. É uma carrinha tipo familiar com capacidade para 5/6 pessoas. Tantas histórias nos contaram sobre as suas viagens que nos aguçaram o apetite, não é tão ornamentada quanto a deles mas tem o essencial, inclusive um chuveiro separado da casa de banho.

Tínhamos decidido antes de iniciar esta viagem, com 5 adultos e 2 crianças, em duas carrinhas, que iriamos poupar dinheiro tanto no transporte como no alojamento. Quanto às refeições essas seriam efetuadas nas localidades por onde passávamos para conhecer e desfrutar a gastronomia local – gozar um fim-de-semana em pleno sem trabalho culinário, é sempre fantástico. Ainda que a “Vana” estivesse equipada com um fogão de dois bicos e um pequeno frigorífico, mesa, cadeiras, enfim todos os equipamentos e utensílios próprios de um “estúdio”.

Diz-nos, apesar da tão pouca experiência, nestas “road trip” que procurar um lugar ideal para estacionar não se adivinhava tarefa fácil, por isso fez-se o reconhecimento da região e recolheram-se dados para não haver surpresas. Não nos podemos esquecer que em certos locais as autocaravanas não podem circular, por falta de espaço ou transito a mais, por isso há que pensar em alternativas.

Abastecemos os reservatórios de água potável antes da partida mas sabíamos que tínhamos de reabastecer de novo e fazer as descargas necessárias, “ao fim e ao cabo”, desculpem-me a redundância, o consumo de água em função do número de pessoas, para os banhos-duche, lava-loiças e sanitários ainda era elevado, por muito que se fizesse uma boa gestão do seu uso.  

Tendo isso em linha de conta, quando programamos a viagem uma das nossas grandes preocupações era saber se no local do destino existiam parques para autocaravanas e quais as infraestruturas que ofereciam. Já os nossos amigos, com a sua “Bimbo”, são muito práticos, fazem as necessidades fisiológicas nos cafés das localidades. São só dois, não tem crianças e a “Bimbo” mais pequena que a nossa “Vana”, mas com espaço q.b., circula facilmente por qualquer lado. Menos uma preocupação para este casal que tem adiado a “instalação” de uma casa de banho … e depois!? Em caso de urgência tem o mato ou utilizam a nossa cassete sanitária.

Entre pesquisas, localizamos um em Terras de Bouro – o Pichoses Camping, um parque de campismo com área de serviço e de pernoita para autocaravanas, que dispunha do que precisávamos: ponto de conexão para abastecimento de água potável e descarga de água suja, bem como abastecimento de água e energia elétrica. Outra opção, o Parque de Campismo de Cerdeira, situado no coração do Parque Nacional da Peneda-Gerês, ótimo para um fim-de-semana com crianças, que tinha sido recomendado por um outro casal amigo, e que segundo eles era um parque que já tinha sido distinguido várias vezes por ter boas práticas ambientais e sociais.

Entardecia muito rapidamente, a viagem já ia longa, o cansaço instalou-se e tínhamos decisões a tomar … Era a primeira noite da “road trip”.

#4 – Agenda de namoro – O programador E-dating

Com sabedoria e amor é possível reinventar a vida do casal numa nova família com filhos.

A nossa Rosa-dos-Ventos….  simboliza os bons ventos do amor.

Não … não, não é o que hipoteticamente poderão estar a pensar! Não é nenhuma agenda a registar o nome dos namorados ou as respetivas datas de aniversários, ou ainda outro tipo de informações. A explicação dá-se mais à frente!

Depois do almoço, ficámos todos a descansar, a relaxar em amena cavaqueira enquanto se bebia um café e as crianças desentorpeciam as pernas, em modo corrida brincavam à “apanhada”. O tema era divórcio. A minha cunhada Aurora apesar de estar a viver uma separação amigável não deixa de sentir o fracasso, não é fácil desconstruir uma vida que se pensava que era para a vida. Um divórcio é doloroso, sobrevive-se mas como encarar a vida após divórcio, para mais com um filho, como lidar com as frustrações e os sentimentos, os nossos e os dos filhos – é o refazer de uma vida.

E conversamos, conversamos … e fui expondo em jeito de experiência vivida.

Desde muito nova que escrevia as minhas emoções e os meus pensamentos num diário secreto, era um momento único só meu, livre para escrever sobre mim. Quando comecei a namorar a sério, criei aquilo a que chamei uma “agenda de namoro”, como se fosse um diário de namoro, que mais tarde, “beeem” mais, já casada, evoluiria para “E-dating”, uma agenda em formato digital, que podia ser consultada, por ambos através do computador ou noutro dispositivo. Tinha como objetivo não deixar “cair” o namoro, alimentar o amor e não deixar a rotina conquistar espaço. Era o nosso programador para “to go out together”.

Uma primeira tentativa resultou em falhanço absoluto. Registava os eventos que achava interessantes, filmes em estreia, concertos, e bastante mais mas raramente conseguia os meus intentos. Muitas vezes porque o dito namorado não lhe apetecia ou não se mostrava disponível, ou tínhamos brigado ou porque a pequena mesada que nos cabia em sorte já tinha sido gasta, enfim, lentamente a agenda foi “morrendo”, “verdura” própria da juventude.

Cresci, casei e para não fugir à regra decidimos aumentar a família e ter filhos. A ocasião demorou mas chegou – estava grávida. A nossa felicidade era contagiante, anunciamos aos nossos familiares, amigos e colegas de trabalho, como se não houvesse amanhã.

E continuei contando … em jeito de história mas real.

Grávida já de cerca de seis meses íamos felizes a conversar entre nós a caminho de casa, depois de uma ecografia observada. De repente, o meu marido soltou a seguinte afirmação – “Espero que com o nascimento da nossa filha a relação entre nós não se altere, que a nossa individualidade enquanto casal seja preservada”.

Interessante mas estranha, pensei e disse: “Porquê? Estás a perfilhar que um filho não deve ser colocado em primeiro lugar? Discutimos o assunto…, sim passam a ser uma das nossas prioridades, na verdade todos os pais querem o melhor para os seus filhos, obviamente! Mas para nos afirmarmos como bons pais temos de construir uma base sólida e, é exatamente no bom relacionamento entre marido e esposa que está a base da família. O mundo da criança cresce nesta base, logo não temos de escolher entre ser bom pai/mãe e bom marido/esposa. Todos têm o seu lugar, direito à sua individualidade no grupo da família.

Eduardo Sá no seu livro “Quem nunca morreu de amor”, uma das minhas leituras de momento, diz que “Os pais são sempre excelentes pessoas, mas excelentes pessoas mal-amadas são sempre piores pais.”

A determinada altura da conversa, todos concordaram que muitos dos problemas que os casais enfrentavam era exatamente não terem arranjado tempo para namorar – é aquilo a que muitos chamam “crise pós-filhos”. Uns mantém um casamento de “fachada” com medo que mais ninguém se apresente ou enquanto o amor suavemente e lentamente desaparece, vivem um divórcio a prestações, como se de uma amizade colorida se tratasse e outros ainda porque simplesmente acreditam no amor e Querem Amar, encontrar alguém que os “adivinhe” por dentro.

E foi a partir daqui que o “E-dating” voltou a entrar na conversa.

Nos primeiros meses a nossa filha era a grande prioridade, depois paulatinamente reconquistamos os nossos papéis de homem/mulher, enquanto exercíamos o poder paternal.

A nossa filha vai fazer 8 anos e continuamos em modo de aprendizagem, a tendência é para nos deixarmos ir ao sabor dos acontecimentos e nem nos apercebemos do risco para a relação do casal. No final de cada dia o cansaço impera, a correria do dia com as tarefas, as atividades, os jantares para fazer, os banhos, trabalhos de casa para orientar, muitas vezes do tipo “XXXL”, não deixam tempo para nada. O casal precisa de reservar um tempinho para conversar sobre o “mundinho de cada um”, sentir a relação – “o nós”, o casal marido e esposa, não deixou de ser homem e mulher. É necessário aqui e ali arranjar tempo e combinar programas sozinhos ou com casais de amigos. Ou como esta viagem repentina sobre rodas que estamos a fazer. Matamos a rotina antes que ela faça estragos.

Com a ajuda do nosso “E-dating” reeditado, conseguimos fazer algumas “saídas”, idas ao cinema, jantar fora sozinhos ou com amigos. Cada um regista, insere eventos na agenda e elenca as prioridades, nem sempre é possível mas compromisso é para cumprir, salvo em casos extremos. É o nosso programador de serviço. Ajuda-nos a gerir a nossa relação amorosa, não como uma atividade curricular, não como uma obrigação, mas sim como um caminho a seguir – é a nossa rosa-dos-ventos, desenhada por nós e que simboliza os bons ventos do amor.

A vida do casal nunca mais será a mesma, até porque a família passou de dois para três elementos, namorar casados e com um filho entre nós, não é fácil e dá trabalho. Mas com sabedoria e amor é possível reinventar a vida do casal nesta nova família. Se pudermos não perder o amor tanto melhor, mas se não for possível terá de se ir à procura do amor noutro lugar, com coragem – viver sem amor não é viver.

A minha cunhada abraçou-me chorosa disse: Obrigada, pela partilha. Vou ficar com esta mensagem no meu coração.

Entretanto, os miúdos chegaram e perguntaram: Afinal quando vamos embora? Não chega de conversa?

E lá fomos nós à descoberta … de mais uma aventura entre família e amigos.

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#3 – Quem me dera …

No raiar do amanhecer partíamos por terras portuguesas à descoberta de um tesouro, o Gerês.

Prontos para partir para mais uma aventura … Viajar é preciso!

 

Ter outra vez oito anos e saber tudo o que sei hoje, que bom seria vir para voltar a aprender. Um, dois, três, vamos começar outra vez …. A doçura da infância iluminando a existência – sorrir, abraçar, brincar, cantar, acarinhar e amar.

Criança eu preciso
lembrar-me de ti
Na vida tão escura
tens luzes na mão
O sonho, a ternura, o amor
a razão…”  Carlos Paião em “A Razão Lyrics”

Quando olho com nostalgia para trás percebo aquele amor vivido, sentido, único e tão precioso que tive a sorte de receber e quiçá, sem perceber, não terei dado o devido valor. Fui e sou tão amada!

No raiar do amanhecer partíamos por terras portuguesas à descoberta de um tesouro, o Gerês. O meu marido Benjamim ou Ben, como carinhosamente o tratava, nome cujo significado “filho da felicidade ou o bem-amado” lhe assenta como uma luva, conduzia a autocaravana refletindo a sua áurea positiva num belo dia soalheiro, aos demais convivas. Contentes e felizes iam numa amena conversa. A copiloto, a minha cunhada Aurora, grande mulher, muito sociável e imaginativa, adversa a desavenças é ótima para estabelecer ambientes harmoniosos, como se pretende para uma viagem sobre rodas e num espaço tão exíguo, como o é o de uma autocaravana.

Suavemente fui lá para trás e recostei-me um pouco no sofá para achar o descanso, aquietar a inquietude à flor da pele enquanto os miúdos estavam distraídos a ver um filme na Tablet. Depois de uma noite tão agitada, bem merecia … Relaxei, como que a repousar dentro de mim, o sono começou a vir e levou-me ao sonho. Uma viagem dentro de outra viagem.

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Acordei sobressaltada, com o Papi a chamar “Acorda. Levanta-te, já é tarde, vais chegar atrasada ao passeio”. Mas o corpo pesado, sem movimento mantinha-se deitado, a cabeça coberta com a almofada não abafava a gritaria nem o despontar do dia lá em casa. Calmamente consegui balbuciar quase sem som um débil pedido “só mais um bocadinho…siiimm”, cuja intencionalidade se perdia no espaço e não chegava aos ouvidos de ninguém. Teimosamente assim fiquei uns instantes. De repente alguém me envolveu com muito carinho e me sussurrou “vais ficar sem praia, ficas sozinha na escola se perderes a camioneta”. Que nem mola saltei da cama, o Papi ria maroto, a Mami um pouco zangada de lancheira pronta, esperava por mim com o pequeno-almoço já na mesa.

Todos prontos saímos de casa, aflita pedia “Papi, acelera, acelera, por favor”. Perante a realidade e paralisada sem saber como reagir, a tristeza cravada nos meus olhos vociferava irada contra a minha mãe e contra todos.

… (sonho interrompido)

Uma travagem brusca atirou-me para o chão da autocaravana, assustei-me e gritei “Ben, o que aconteceu? Tens de ter cuidado. Aqui atrás está tudo espalhado. Tens de parar aí mais à frente, para ver se as crianças assustadas estão bem e arrumar as coisas”. Tinha sido um cão que se atravessou no caminho, mas ficou bem.

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Quem me dera voltar àquele sonho. As memórias traziam até mim este pedaço de vida de infância. Reviver aquele amor de mãe e de pai perante aqueles meus oitos anos com muito mau feitio e “pelo na venta”, num momento de grande fúria e de descontrole, perante uma situação que eu não estava isenta de culpa. Zangaram-se, ralharam, explicaram, animaram-me e com um sorriso compreensivo levaram-me até à praia ao convívio dos meus amigos e dos meus professores.

Se voltar atrás recordo as diversas birras que caprichosamente fazia, o agir por impulso, ou sem pensar e sem ter noção das consequências. Que bela visão aqueles sorrisos, aquela generosidade – criaram-me, educaram-me, amaram-me e estiveram sempre presentes na minha vida. Espero ter estado à altura do amor incondicional deles. Quem me dera … ainda hoje “bebo” os conselhos da minha mãe.

A sério!? Nem a propósito absorta nestes pensamentos, que na verdade são uma constante e me caracterizam, e as crianças com uma birrinha ali mesmo ao meu lado. Aborrecidos discutiam os dois, uma chorava e outro ria, sempre a mesma coisa.

Estava na hora de ter uma conversa com eles de “olho no olho”, enquanto o Ben procurava um sítio para parar e almoçarmos, e lembrar-lhes que combinámos manter a calma e pensar duas vezes antes de gritar, durante o passeio deste fim-de-semana.

Dirigi-me a eles e comecei por dizer:

– Espero que me respondam exatamente como estou a perguntar, com calma e gentileza. O que se passa?

– Um pouco alterado mas com algum receio à mistura, o meu sobrinho Samuel acusador balbucia qualquer coisa impercetível … no final só percebi, foi ela…

– A Carminho salta, muito indignada “berrava” como que a querer afirmar a sua razão e a fazer-se ouvir… Não, não,… foste tu…

Como não estava a perceber nada, pedi-lhes tranquilidade e disse-lhes: sei que estão bravos, mas não é a gritar e a barafustar que se resolvem os problemas. Para vos poder ajudar tem de me contar tudo.

Sabia que precisava de os acalmar, senão era impossível falar com eles. Lidar com zaragatas e birras não é fácil, aquilo é uma explosão de emoções. A minha mãe dizia-me muitas vezes que era importante saber lidar com a frustração própria de uma birra bem como reaver o equilíbrio da situação. Agora que sou mãe, como a percebo!

De repente, tive um flashback, a minha mãe quando eu era pequenita, sentava-nos a contar uma história, verdadeira ou não, e produzia efeito – íamos serenando devagarinho, enquanto a escutávamos, até que nos esquecíamos do sucedido e no final “olho no olho” riamo-nos dos disparates e abraçávamo-nos em jeito de pacificação. E assim fiz, contei-lhes o meu sonho acabadinho de ter. Gozaram-me, riram-se, e diziam um para o outro: ela também fez birras, sempre na risada. E resultou! resultou bem na hora. O Ben e a minha cunhada enunciaram lá da frente, chegámos malta. Vamos almoçar!

Ainda nesse dia, ao telefone com a minha mãe, como fazia todos os dias, para saber se estava tudo bem, relatei-lhe o sucedido. Com sabedoria afirmou que a birra, desde que com conta, peso e medida, faz parte do desenvolvimento infantil. Na verdade, dizia-me ela, pensa bem, na maioria das vezes nós adultos pensamos que elas nos estão a desafiar, mas estão apenas a crescer e a desenvolver a sua autonomia, a fazer as suas escolhas. Compete-nos a nós pais munir-nos de toda a paciência e compreensão do mundo e com muito amor acolher a montanha russa de sentimentos que as crianças disparam durante as suas birras.