#4 – Agenda de namoro – O programador E-dating

Com sabedoria e amor é possível reinventar a vida do casal numa nova família com filhos.

A nossa Rosa-dos-Ventos….  simboliza os bons ventos do amor.

Não … não, não é o que hipoteticamente poderão estar a pensar! Não é nenhuma agenda a registar o nome dos namorados ou as respetivas datas de aniversários, ou ainda outro tipo de informações. A explicação dá-se mais à frente!

Depois do almoço, ficámos todos a descansar, a relaxar em amena cavaqueira enquanto se bebia um café e as crianças desentorpeciam as pernas, em modo corrida brincavam à “apanhada”. O tema era divórcio. A minha cunhada Aurora apesar de estar a viver uma separação amigável não deixa de sentir o fracasso, não é fácil desconstruir uma vida que se pensava que era para a vida. Um divórcio é doloroso, sobrevive-se mas como encarar a vida após divórcio, para mais com um filho, como lidar com as frustrações e os sentimentos, os nossos e os dos filhos – é o refazer de uma vida.

E conversamos, conversamos … e fui expondo em jeito de experiência vivida.

Desde muito nova que escrevia as minhas emoções e os meus pensamentos num diário secreto, era um momento único só meu, livre para escrever sobre mim. Quando comecei a namorar a sério, criei aquilo a que chamei uma “agenda de namoro”, como se fosse um diário de namoro, que mais tarde, “beeem” mais, já casada, evoluiria para “E-dating”, uma agenda em formato digital, que podia ser consultada, por ambos através do computador ou noutro dispositivo. Tinha como objetivo não deixar “cair” o namoro, alimentar o amor e não deixar a rotina conquistar espaço. Era o nosso programador para “to go out together”.

Uma primeira tentativa resultou em falhanço absoluto. Registava os eventos que achava interessantes, filmes em estreia, concertos, e bastante mais mas raramente conseguia os meus intentos. Muitas vezes porque o dito namorado não lhe apetecia ou não se mostrava disponível, ou tínhamos brigado ou porque a pequena mesada que nos cabia em sorte já tinha sido gasta, enfim, lentamente a agenda foi “morrendo”, “verdura” própria da juventude.

Cresci, casei e para não fugir à regra decidimos aumentar a família e ter filhos. A ocasião demorou mas chegou – estava grávida. A nossa felicidade era contagiante, anunciamos aos nossos familiares, amigos e colegas de trabalho, como se não houvesse amanhã.

E continuei contando … em jeito de história mas real.

Grávida já de cerca de seis meses íamos felizes a conversar entre nós a caminho de casa, depois de uma ecografia observada. De repente, o meu marido soltou a seguinte afirmação – “Espero que com o nascimento da nossa filha a relação entre nós não se altere, que a nossa individualidade enquanto casal seja preservada”.

Interessante mas estranha, pensei e disse: “Porquê? Estás a perfilhar que um filho não deve ser colocado em primeiro lugar? Discutimos o assunto…, sim passam a ser uma das nossas prioridades, na verdade todos os pais querem o melhor para os seus filhos, obviamente! Mas para nos afirmarmos como bons pais temos de construir uma base sólida e, é exatamente no bom relacionamento entre marido e esposa que está a base da família. O mundo da criança cresce nesta base, logo não temos de escolher entre ser bom pai/mãe e bom marido/esposa. Todos têm o seu lugar, direito à sua individualidade no grupo da família.

Eduardo Sá no seu livro “Quem nunca morreu de amor”, uma das minhas leituras de momento, diz que “Os pais são sempre excelentes pessoas, mas excelentes pessoas mal-amadas são sempre piores pais.”

A determinada altura da conversa, todos concordaram que muitos dos problemas que os casais enfrentavam era exatamente não terem arranjado tempo para namorar – é aquilo a que muitos chamam “crise pós-filhos”. Uns mantém um casamento de “fachada” com medo que mais ninguém se apresente ou enquanto o amor suavemente e lentamente desaparece, vivem um divórcio a prestações, como se de uma amizade colorida se tratasse e outros ainda porque simplesmente acreditam no amor e Querem Amar, encontrar alguém que os “adivinhe” por dentro.

E foi a partir daqui que o “E-dating” voltou a entrar na conversa.

Nos primeiros meses a nossa filha era a grande prioridade, depois paulatinamente reconquistamos os nossos papéis de homem/mulher, enquanto exercíamos o poder paternal.

A nossa filha vai fazer 8 anos e continuamos em modo de aprendizagem, a tendência é para nos deixarmos ir ao sabor dos acontecimentos e nem nos apercebemos do risco para a relação do casal. No final de cada dia o cansaço impera, a correria do dia com as tarefas, as atividades, os jantares para fazer, os banhos, trabalhos de casa para orientar, muitas vezes do tipo “XXXL”, não deixam tempo para nada. O casal precisa de reservar um tempinho para conversar sobre o “mundinho de cada um”, sentir a relação – “o nós”, o casal marido e esposa, não deixou de ser homem e mulher. É necessário aqui e ali arranjar tempo e combinar programas sozinhos ou com casais de amigos. Ou como esta viagem repentina sobre rodas que estamos a fazer. Matamos a rotina antes que ela faça estragos.

Com a ajuda do nosso “E-dating” reeditado, conseguimos fazer algumas “saídas”, idas ao cinema, jantar fora sozinhos ou com amigos. Cada um regista, insere eventos na agenda e elenca as prioridades, nem sempre é possível mas compromisso é para cumprir, salvo em casos extremos. É o nosso programador de serviço. Ajuda-nos a gerir a nossa relação amorosa, não como uma atividade curricular, não como uma obrigação, mas sim como um caminho a seguir – é a nossa rosa-dos-ventos, desenhada por nós e que simboliza os bons ventos do amor.

A vida do casal nunca mais será a mesma, até porque a família passou de dois para três elementos, namorar casados e com um filho entre nós, não é fácil e dá trabalho. Mas com sabedoria e amor é possível reinventar a vida do casal nesta nova família. Se pudermos não perder o amor tanto melhor, mas se não for possível terá de se ir à procura do amor noutro lugar, com coragem – viver sem amor não é viver.

A minha cunhada abraçou-me chorosa disse: Obrigada, pela partilha. Vou ficar com esta mensagem no meu coração.

Entretanto, os miúdos chegaram e perguntaram: Afinal quando vamos embora? Não chega de conversa?

E lá fomos nós à descoberta … de mais uma aventura entre família e amigos.

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#1 – Maravilhoso pedaço de vida

“Era uma vez …”. Aconteceu uma história … neste dia! Como acontece em todas as histórias, há sempre um dia em que tudo começa, como naquele outro dia de qualquer outra história.

“Era uma vez …”. Aconteceu uma história … neste dia!

Como acontece em todas as histórias, há sempre um dia em que tudo começa, como naquele outro dia de qualquer outra história.

A história deste dia começa com um simples telefonema. A Bianca estava em casa com a sua recém-nascida, Carminho de seu nome, com apenas 3 meses tinha acabado de mamar, de fraldinha mudada, serenamente acabou por adormecer. Ambas deliciavam-se ternamente e desfrutavam a aventura de mais um dia de verdadeira magia entre mãe e filha.

Viver a maternidade é uma experiência enriquecedora e bem profunda na vida de uma mulher. Mas naquele dia algo inesperado aconteceu. Uma notícia chegou e abalou toda a felicidade que repousava no seu íntimo.

A avó da bebé – Maria Rosa, em pânico, gritando, chorando, soluçando e de voz trémula lá conseguiu finalmente dizer à sua filha Bianca, que o seu marido, o avó da pequena Carminho, tinha sofrido um ataque cardíaco, tinha partido, morreu tão repentinamente quanto a chamada que se fazia escutar naquele instante e naquele seu telefone.

Incrédula, perante uma situação tão intensamente dolorosa, consigo encontrar forças para agarrar a minha filha nos braços, telefonar ao meu marido e rapidamente nos deslocarmos ao local do infortúnio, a morada de família.

Que tragédia … Como superar a dor até que não doa e se transforme numa doce saudade de quem partiu? 

A perda de um ente querido é uma dor insuportável. Pelo caminho, enquanto o meu marido Ben, conduzia e a minha filha dormia, a tristeza encorpava, o pensamento acelerava e eu chorava devagarinho. Ainda ontem estivemos todos juntos a jantar e ele estava distintamente bem, feliz com a sua neta e família. Agora não mais o tenho presente na minha vida nem na da minha filha, este maravilhoso pedaço de vida.  

Como reagir a esta tragédia? Como fazer o luto? Um homem ainda tão novo que tinha tanto para dar. Como o avô Zé, iria partilhar com esta neta as suas histórias vividas, ou brincar ou ajudar a crescer? Como a sua esposa e minha mãe querida, iria ultrapassar a morte do seu amado esposo? E eu, sim eu … como seriam os dias vividos com a sua ausência daqui para a frente? Estas e outras perguntas bailavam estonteantes de mim para mim … as respostas essas eram igualmente ausentes.

Absorvida nos meus pensamentos, dei conta de um choramingar distante mas, ainda assim, presente e bem perto de mim. A minha filha ali mesmo ao lado, irrequieta, com fome clamava por atenção mas, eu na minha dor, nem percebia ou não queria perceber e continuava abstraída, até que um choro dorido me prendeu, virei-me para ela, limpei as minhas lágrimas que teimavam em cair, agarrei, acarinhei e beijei este maravilhoso pedaço de vida, sofregamente … e ela sorriu, não sei se em resultado de alguma cocegazita! Acalmou sorridente enquanto seguíamos o nosso caminho.

Como é possível alguém estar a viver um momento da vida tão feliz e, de repente, uma morte vem assombrar essa felicidade? Os pensamentos voavam… voavam…

Entretanto chegados a casa, os vizinhos chorosos e tristes abraçaram-nos, alguém segurou na alcofinha da bebé, os bombeiros acabavam de arrumar os “utensílios” e saíram. Um corpo inanimado, morto no chão, a mãe, inconsolável, assim que me viu caiu num pranto arrasador, corri para ela como que a pedir o impossível – o meu pai vivo – abraçou-me, gritou, chorou inconsolável e, descontrolada, enquanto eu sem forças, tudo deixei fazer sem saber como reagir, o que dizer e o que fazer, apenas deixei que as dores se encontrassem e os sentimentos se soltassem, mas o alívio não chegava e a serenidade estava longe das nossas vidas.

Os calmantes que nos “obrigaram simpaticamente” a ingerir não produziram o seu efeito, pelo que enquanto “alguém” tratava dos procedimentos normais e adequados a estas alturas, o desânimo, a frustração, a exaustão, a tristeza, a raiva e até a negação da realidade mantiveram-se que nem “carraças” connosco, naquele dia e nos seguintes … e o bálsamo não chegava, o conforto, o alívio, a superação e o amenizar da dor, apenas a saudade se começava a fazer sentir cada vez mais.

Lentamente as nossas vidas retomavam a sua rotina diária, entrei no ritmo quotidiano, trabalhar, deixar a filha com a avó Maria, ir buscá-la, dar atenção à mãe, cuidar de uma filha bebé, seguir a vida em frente. Esta experiência avassaladora que nos deixou tristes com um sentimento enorme de perda, alertou-nos para a importância da vida, da união, da harmonia, da importância da companhia familiar e de amigos.

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Num ímpeto aflora na minha memória um verso de Fernando Pessoa que relembra que “morrer é só não ser visto”, como uma força invisível que me transporta a sentir a sua presença e me ensina a superar a dor da perda e da ausência.

Neste instante, a emoção cresce, e dou conta que o meu maravilhoso pedaço de vida, a minha filha, foi um milagre que aconteceu nas nossas vidas. Uns partem outros nascem, a vida é isso mesmo. Fazendo jus à máxima de que a morte é algo inevitável e que todos nós partiremos um dia, mas que na verdade ninguém está preparado para ela nem para dizer adeus aos nossos entes queridos.

Mas … esta filha neta que nos remeteu para a vida, foi ela que nos ajudou a recuperar a alegria, um simples sorriso seu, um olhar carinhoso, ajudou-nos a adaptar e transportou-nos para uma nova realidade – viver em família e sentir a presença do marido, do pai e do avô entre nós.

 

 

 

A morte é a curva da estrada

A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.

A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.

Fernando Pessoa

À conversa com Daniela Ricardo, a Chef na cozinha com amor

O livro “Cozinhar com Amor” de Daniela Ricardo, é um dos vencedores dos Gourmand Awards deste ano, na categoria receitas caseiras fáceis. A autora acredita no poder do amor e acredita que cozinhar, e tudo o que envolve a alimentação, é provido de uma grande dose de amor.

A Chef Daniela Ricardo vence concurso na categoria de receitas caseiras fáceis (Easy Home Recipes), do Gourmand World Awards. Damos os parabéns por tão prestigiante prémio! Uma conquista que, sem dúvida, engrandece o seu palmarés e valoriza um trabalho dedicado com tanto amor à cozinha.

Daniela Ricardo é chef, professora e consultora de alimentação consciente e natural, um testemunho de uma vida com sucesso que queremos, sem dúvida, partilhar consigo. Aqui fica a conversa escrita. Leia, leve e inspire-se… A magia acontece e o sonho concretiza-se!

Eu que nunca tinha imaginado escrever um livro, já escrevi dois. Não sabia sequer da existência dos Gourmand Awards, já ganhei um. Tudo o que posso dizer é que a vida é mágica quando vivemos em fluxo. A vida é mágica quando somos autênticos e fazemos o que nos apaixona.

 `Cozinhar com Amor´

 O Amor é a base de tudo e o amor nas suas múltiplas facetas é a energia mais poderosa do universo. …. Acredito que comer é um gesto de amor-próprio importantíssimo, que mostra ao universo e a nós próprios o quanto nos amamos.”

cozinha com amor

 

Nós: Quem é a Daniela Ricardo, mulher? E a Chef Ricardo?

Daniela Ricardo: A Daniela Ricardo mulher e chef, são a mesma pessoa. Eu mesma, pois são indissociáveis e coincidem porque faço aquilo que me apaixona, o que me faz vibrar, o que me faz sentido. A minha intensão é mostrar que a alimentação tem um papel fundamental nas nossas vidas e que ela influência muito mais do que parece.

O meu currículo de uma forma muito sintética é que fui Enfermeira durante 20 anos (1997-2017), no IPO do Porto, na área da transplantação de medula óssea. Sou terapeuta de Shiatsu algo que estudei com o intuito de o aplicar na minha área profissional. Mais tarde formei-me como Professora e Consultora de Macrobiótica. Sou apaixonada pela cozinha, adoro cozinhar e ensinar quem comigo quer aprender a alquimia do alimento como cura, ou apenas como prazer sensorial.

Sou apaixonada pelo Mundo e por conhecer novos lugares. Organizo viagens e retiros juntamente com o meu marido Luís Baião, através da Zen family. Já cozinhei um pouco por todo o mundo e adoro a ideia de levar cada vez mais pessoas a adotarem um estilo de vida saudável e consciente, que contribua tanto para o seu bem-estar físico, como para o equilíbrio e sustentabilidade do planeta.

Sou autora dos Livros “Viagens da Comida Saudável” e “Cozinhar com Amor”, este último, tal como já referiram vencedor de um Gourmand Cookbook Award este ano.

Nós: A sua atividade profissional como enfermeira na área da oncologia teve influência na decisão de mergulhar no mundo dos alimentos?

Daniela Ricardo: Sim, a minha atividade profissional teve influência, uma vez que o que me despertou para um novo mundo e uma nova visão da saúde foi ter-me tornado primeiramente terapeuta de shiatsu, para ajudar os meus clientes no hospital e mais tarde ter percebido que através das nossas escolhas alimentares estamos a alimentar o nosso organismo no caminho de mais ou menos saúde, dependendo das escolhas que fazemos, claro.

Nós: Fez alguma formação específica na área da alimentação saudável ou é autodidata?

Daniela Ricardo: Fiz o Curso de Curricular de Macrobiótica, há 15 anos atrás, que é um curso de 3 anos e que aborda muito mais do que apenas a alimentação e nos deixa credenciados para ser consultores de alimentação macrobiótica e estilo de vida. Fiz, entretanto, vários outros cursos de nutrição e alimentação na Stanford University. Além do estudo pessoal, que é algo que temos que ter sempre presente e ser constante.

Nós: O que é o Gourmand World Cookbook Awards?

Daniela Ricardo: Os Gourmand World Cookbook Awards é um concurso que elege os melhores livros, revistas, programas televisivos ou blogs de culinária de cada ano. Os Gourmand World Cookbook Awards foram criados há 23 anos por Edouard Cointreau e participam neste prestigiado prémio, que é a única competição internacional do setor, livros de mais de 200 países. Esta iniciativa elege os melhores na gastronomia em dezenas de categorias, organizadas por autores, editoras, países, lifestyle, temas (peixe, pão, vegetarianas, receitas fáceis, etc.) e angariação de fundos.

Todos os anos, Gourmand entrega os prémios num lugar muito especial para a gastronomia, este ano foi em Yantai, na China. A cerimónia foi uma oportunidade para encontrar muitas pessoas importantes no mundo da alimentação e dos livros: centenas de editoras, autores, chefs e jornalistas que participaram neste evento. Os Gourmand Awards têm sido comparados aos “Óscares” para a alimentação e inspiram-se nos Jogos Olímpicos e no seu espírito.

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Nós: O que significa para si receber esta distinção? Estava à espera ou não pensou nisso?

Daniela Ricardo: Receber esta distinção é para mim muito prestigiante e um reconhecimento do meu trabalho.

Estou muito feliz, por o meu livro “Cozinhar com Amor” ser um dos melhores livros do mundo. É um dos vencedores dos Gourmand Awards deste ano, na categoria receitas caseiras fáceis.

Eu que nunca tinha imaginado escrever um livro, já escrevi dois. Não sabia sequer da existência dos Gourmand Awards, já ganhei um. Tudo o que posso dizer é que a vida é mágica quando vivemos em fluxo. A vida é mágica quando somos autênticos e fazemos o que nos apaixona.

 

viagens de comida saudávelNós: Como surge a ideia do livro “Viagens da comida saudável”?

Daniela Ricardo: A ideia do Livro “Viagens da Comida Saudável” surgiu em viagem, nas várias viagens que faço pelo mundo com a Zen Family, em países como Brasil, Nepal, India, Cambodja, Vietnam, Perú, Tailândia e até mesmo o nosso Portugal, e que me possibilita ir aprender com essas novas culturas para mim, novas receitas, novas formas de nos nutrirmos. Então, ainda em viagem dei por mim a ajustar a as receitas para as fazer em Portugal com alimentos locais, sazonais, biológicos e sem alguns produtos que considero menos benéficos e dispensáveis para o nosso organismo. Dei por mim a estudar o que era a alimentação tradicional dessas culturas e como seria uma alimentação mais consciente e natural, dessas mesmas culturas. E assim surgiu, primeiro apenas como curiosidade pessoal que depois tomou forma de livro, para partilhar com todos e estimular a uma alimentação saudável através de sabores do mundo, com produtos nossos.

Nós: É adepta da alimentação macrobiótica?

Daniela Ricardo: Partindo do principio que a alimentação macrobiótica nada proíbe, que coloca enfase no consumo de alimentos preferencialmente de origem vegetal (como vegetais, leguminosas e cereais integrais), locais, sazonais, biológicos, o mais integro possíveis, sem aditivos químicos e que tem em consideração o nosso estilo de vida, a nossa idade e a nossa condição física, sim. Sou adepta da alimentação macrobiótica.

Nós: Recentemente publica um outro livro cujo título é muito sugestivo. Foi por paixão que escreveu este seu livro de receitas fáceis – “Cozinhar com Amor”?

Daniela Ricardo: Foi por paixão e para incentivar mais pessoas a adotar uma forma de comer mais consciente e natural. Comer é um ato de amor connosco e com os outros. O Amor é a base de tudo e o amor nas suas múltiplas facetas é a energia mais poderosa do universo. Eu acredito nisso mesmo e acredito que cozinhar, e tudo o que envolve a alimentação, é provido de uma grande dose de amor. Acredito que comer é um gesto de amor-próprio importantíssimo, que mostra ao universo e a nós próprios o quanto nos amamos. A minha intenção é mostrar que o ato de comer é mais do que ingerir macronutrientes, mas que através deles podemos ingerir energias subtis e transformar as nossas vidas e a de todos os que nos rodeiam através das escolhas que fazemos.

Nós: Quando e como decidiu escrever este livro “Cozinhar com amor”? Porquê receitas fáceis? Tinha algum objetivo em mente?

Daniela Ricardo: Quando decidi escrever este livro, o meu objetivo foi mostrar que qualquer pessoa pode fazer coisas deliciosas e saudáveis, seja qual for o seu papel social. Este livro mostra uma forma de alimentação que não é apenas uma dieta, mas sim um estilo de vida.

Existem várias formas de nos alimentarmos de forma saudável e equilibrada, devemos escolher aquele que faz ressonância connosco e que faz mais sentido para cada um de nós. Seja qual for o regime alimentar que opta, é importante que ele seja sustentável, que promova a biodiversidade tanto animal como vegetal. Isso é comer com consciência, de que estamos a contribuir para um todo. O todo é bem mais do que o mundo que conhecemos.

Escolhi receitas fáceis, para que não exista a desculpa de que é difícil, que não é exequível e escolhi para participar neste livro amigos que partilham a minha visão da vida e que transformaram as suas vidas também através da forma como se nutriam. Todos eles com papeis sociais intensos e que deixam sem argumentos todos aqueles que têm como desculpa o estilo das suas vidas.

Os amigos que convidei para participarem neste livro foram a Fátima Lopes porque é notório na sua vida a preocupação com a alimentação e hábitos de vida saudáveis, pretendendo que esta seja sempre o mais natural e equilibrada possível mesmo tendo uma vida super agitada como acontece no mundo da televisão. A Geninha Varatojo, que mudou os seus hábitos há muitos anos atrás, fazendo disso o seu modo de vida e até de subsistência. Criou 4 filhos com hábitos conscientes e naturais tendo por base a filosofia macrobiótica e é fundadora do Instituto Macrobiótico de Portugal com o marido – O Francisco Varatojo – onde inspiram tantas pessoas a terem uma alimentação mais cuidada, como me inspirou a mim. A Rute Caldeira que já tinha percebido que existem várias formas de nos alimentarmos e que consegui autênticos milagres através da sua “Dieta Espiritual” e que consolidou e conseguiu os resultados que faltavam associando a alimentação após ter feito uma consulta comigo. O Luís Baião, que é meu marido, por ter assimilado os conhecimentos que adquiriu através da Macrobiótica para se curar de uma doença oncológica e o conseguir integrar no seu dia-a-dia mesmo quando está em viagem. O Pedro Norton de Matos que depois de uma vida empresarial intensa teve uma epifania, como ele mesmo descreve, e mudou os seus hábitos. E o Alexandre Gama, um querido amigo especialista na área do Feng Shui, que nos mostra que esta disciplina não se aplica apenas à casa, mas que se pode aplicar a todas as áreas da nossa vida, incluindo à da alimentação.

Além de tudo isto e como tudo o que fazemos conta, criamos uma coleção de loiça orgânica em parceria, surgindo assim a loiça aBiofamily by Barru inspirada nas viagens e que possibilitou tornar o nosso livro mais orgânico. Tudo desde a comida até ao prato onde comemos é consciente e natural, além de a loiça é absolutamente linda e consciente.

Nós: Fale-nos um pouco do projeto aBiofamily? Como surgiu? Que atividades exercem?

Daniela Ricardo: O projeto a aBiofamily  visa divulgar a Culinária e um Estilo de Vida Consciente e Natural, assim como levar todos os que a acompanham a sonhar e iniciarem viagens pelo Mundo, ainda que dos sabores. Este projeto surgiu porque deste que percebi o poder do alimento estive sempre ligada a atividades  e projetos que visam divulgar uma alimentação e estilo de vida saudáveis. Fui inclusive fundadora e co-directora do Instituto Macrobiótico de Portugal, no Porto.

Mantendo a minha vontade de contribuir ara um mundo mais saudável e sustentável, juntamente com o meu marido criamos a aBiofamily, que é uma extensão ou um ramo da Zen family. Isto porque encontramos uma forma de divulgar e estimular a hábitos de vida saudáveis através dos retiros e eventos que a Zen family organiza e dos quais faço parte e sou responsável pela área da alimentação como chef e como professora e consultora.

As atividades que a aBiofamily exerce  vai desde Consultas de orientação alimentar, palestras, showcooking, workshops e aulas individuais de alimentação consciente e natural, até aos retiros que incluem sempre a alimentação desta forma, 100% biológica e nos quais assumo o papel de chef, às viagens pelo mundo nas quais sensibilizo para a importância das nossas escolhas e eu mesmo faço as escolhas junto dos diversos chefs que conheço pelo mundo.

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Nós: Pode falar um pouco da parceria com o Projeto de viagens Zen Family?

Daniela Ricardo: Esta parceria está já explicada com a resposta anterior. Aliamos a vontade e o gosto de viajar pelo mundo e fazer eventos em Portugal, com a alimentação consciente e natural, mostrando mais uma vez que é sempre possível. Basta querermos e saber que escolhas fazer.

Nós: Quer deixar alguma mensagem ou sugestão específica aos nossos leitores?

Daniela Ricardo: A mensagem que mais gosto de deixar é um pouco provocativa. Que é:

Atrevam-se a ser diferentes. Vivam conscientes. Alimentem-se de uma forma consciente e natural. Lembrem-se que tudo o que comemos fará parte de nós de alguma forma, por esse motivo é deveras importante ter consciência do que comemos e como comemos. Comer e cozinhar são mesmo uma forma de amar.

Nós: E uma receita que possa inspirar vontades de fazer acontecer – Hum … Vou experimentar!

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Daniela Ricardo: Claro que sim, aqui fica uma receita muito fácil e que todos adoram 

Chips de batata-doce e beterraba. Esta é uma boa escolha, não é?

As batatas-doces e as beterrabas ficam tão crocantes e saborosas cortadas às rodelas e levadas ao forno, que me fazem lembrar as batatas fritas de pacote, com o benefício de não serem fritas e por esse motivo sem óleo. São uma alternativa muito saudável que até os mais novos adoram.

Ingredientes:

  • 1 ou 2 Batata doce média
  • 1 beterraba média
  • Alho em pó
  • Tomilho seco
  • Sal marinho (opcional)

Lave muito bem as batatas e a beterraba. Seque-as com um pano. Corte-as rodelas finas com cerca de 2mm-3mm, com a ajuda de uma faca ou com outro utensílio que sirva para o efeito. Disponha as rodelas num tabuleiro de forno forrado com papel vegetal. Tempere com sal, alho em pó e tomilho seco.

Leve ao forno a 150º cerca de 20min (o tempo pode variar com forno). Passado este tempo vire as rodelas, volte a temperar e deixe cozinhar mais 15-20 minutos. Estão prontas quando estiverem secas e estaladiças.

Esta é uma receita do Livro “Cozinhar com Amor”, da minha autoria e vencedor do galardão de melhor livro do mundo, na categoria receitas caseiras fáceis, nos Gourmand Cookbook Awards de 2018.

 

Muito obrigada Daniela Ricardo! 

 

 

 

Poema à mãe

“Olha – queres ouvir-me? –
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;”

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No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha – queres ouvir-me? –
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal…

Mas – tu sabes – a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.tree-3322566__340
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

 

Eugénio de Andrade, in “Os Amantes Sem Dinheiro”