Natal dos Simples

Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
às raparigas solteiras

Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
às raparigas casadas

Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte

Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra

Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas, pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza

Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à aventura

Zeca Afonso

O Natal pode ser mágico! Memórias de Natal – O peru

O Natal pode ser mágico! Está ao nosso alcance fazer acontecer momentos mágicos. Muitas vezes, basta dar um pouco do nosso tempo a alguém que, pela vida já vivida, apenas deseja atenção e um abraço carinhoso. Uma senhora que já passou dos noventa anos contou-nos as suas memórias de Natal e deu-nos a sua receita do Peru de Natal que, em todos os Natais, punha na mesa com a família reunida.

Enquanto conversávamos e tomávamos um chá aconchegante, visivelmente emocionada, foi-nos contando as suas memórias e deu-nos a receita do peru que aqui partilhamos.

“Para que a carne ficasse tenra, pois os animais andavam soltos no campo, era embebedado, era-lhe dado aguardente a beber. Depois de morto, depenado e limpo esfregado com sal grosso e forrado com rodelas de limão, era colocado num alguidar com um pouco de água gelada de um dia para o outro num local bem fresco.

Nós: E não a chocava matar ou ver alguém matar o peru?

Não. Nós tratávamos os animais com carinho, alguns até tinham nome e respondiam quando eram chamados pelo nome. Mas, quando necessário eram mortos para as refeições da família, era com esse objectivo que eram criados. Naquela época, não havia supermercados nem talhos a qualquer esquina como há hoje e só íamos ao talho comprar carne muito raramente porque todos tinham as criações de animais que serviam para produzir os ovos e a carne para nos alimentarmos. A carne que comíamos dos animais criados no campo era muito saborosa, em nada parecida com a carne embalada que hoje se compra nos supermercados.

No dia seguinte, durante uma ou duas horas, punha-se o peru a escorrer a água. Entretanto preparava-se uma pasta com bastante alho, salsa, presunto cortado muito miudinho e manteiga ou azeite e um pouco de sal. Introduz-se esta pasta por entre a pele e a carcaça do peru. No interior do peru colocava-se mais presunto com a parte gorda da carne, um pouco de sumo de limão, duas folhas de louro, regava-se com vinho branco e um cálice de aguardente. Ficava assim temperado até ao outro dia num local bem fresco. No dia seguinte ia ao forno, se necessário colocava-se um pouco mais de água, de vez em quando regava-se com o molho e virava-se para assar de ambos os lados. Quando a pele estava bem tostadinha estava pronto a ir à mesa.

Estando o forno bem quente eram cortadas batatas aos palitos, temperadas com sal, salsa, alho picado e uma cebola grande cortada às rodelas, regavam-se com o molho do peru e iam ao forno a assar. Com os miúdos do peru fazia-se arroz que se deixava cozinhar no forno.

Quando se chegava ao natal e ainda havia castanhas, coziam-se com sal, descascavam-se e regavam-se com um pouco de azeite ou pequenas nozes de manteiga e também iam ao forno a tostar.

Nós: Qual a memória mais forte que guarda do Natal?

O que mais gostava era de ver a alegria dos meus filhos e do meu marido nesta época. Gostava também de ver toda a família animada à mesa de Natal e o apetite de todos ….”

Algum humor em torno do peru.

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