Natal dos Simples

Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
às raparigas solteiras

Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
às raparigas casadas

Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte

Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra

Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas, pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza

Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à aventura

Zeca Afonso

Balada da Neve

Balada da Neve

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração

Augusto Gil, Luar de Janeiro

 

Nota sobre o autor:

Augusto César Ferreira Gil nasceu no ano de 1873 em Lordelo do Ouro, Guarda onde estudou. Mais tarde formou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Exerceu advocacia em Lisboa, tornando-se mais tarde diretor-geral das Belas-Artes. Na sua poesia notam-se influências do lirismo de António Nobre, a sua poesia insere-se numa perspetiva neo-romântica nacionalista. Faleceu em Lisboa em 1929.

Homenagem à Poetisa Florbela Espanca – 8 de dezembro

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior (…)” Aqui e Ali fala de Florbela Espanca, uma das maiores poetisas portuguesas do século XX. Nasceu a 8 de dezembro de 1894 e 36 anos depois, em 1930, no dia do seu aniversário decide dormir eternamente – suicidou-se. Desaparece a poetisa do amor!

Eu quero amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: Aqui … além…

Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente

Amar! Amar! E não amar ninguém!

Excerto do poema Amar, escrito pouco tempo antes da sua morte

Na sua obra está patente a constante procura de um ser superior livre de todo o sofrimento, à procura de um Amor – não interessa qual, de um príncipe encantado que nunca chega a ser encontrado, não passa de um ser sonhado, que a atira para a agonia e prostração até à resignação e a manteve num estado depressivo ao longo da sua vida, assumindo, tal como a poetisa nos deixou escrito, a ausência de conhecimento do seu EU.

“Quando morrer, é possível que alguém, ao ler estes descosidos monólogos, leia o que sente sem o saber dizer, que essa coisa tão rara neste mundo – uma alma – se debruce com um pouco de piedade, um pouco de compreensão, em silêncio, sobre o que eu fui ou julguei ser. E realize o que eu não pude: conhecer-me. “

Florbela Espanca, em Dicionário do último ano

Curiosidades – Leia e Leve

Por volta dos oito anos de idade, Florbela Espanca escreveu a sua primeira poesia “A Vida e a Morte” tema tão pesado para uma criança, mas que anunciava um mergulhar no sofrimento e na dor, na tristeza e na solidão, num aparente esvaziamento da vida. Segundo Florbela Espanca “Tudo será melhor do que esta vida!” já que “Viver é não saber que se vive”.

Florbela Espanca estava muito à frente do seu tempo, era muito intensa e de forte personalidade apelidou-se poeta numa época em que essa palavra pertencia ao género masculino.

Foi uma das primeiras feministas de Portugal. Poetisa, autora de sonetos e diversos contos, exprimia na sua escrita, caracterizada por um estilo muito próprio e particular, com alto teor emocional, o seu sofrimento e desânimo e em simultâneo, um fortíssimo desejo de ser feliz.

Sabia que foi erguida na sua terra natal uma estátua de Florbela Espanca, no centro de Vila Viçosa, Distrito de Évora?Que há  uma biblioteca com o seu nome em Matosinhos, terra onde morreu?!

Aconteceu no Museu Municipal de Ourém uma peça de teatro “Florbela Espanca – A hora que passa”, com o objetivo de retratar a última hora de vida da poetisa portuguesa que viveu intensamente o amor e a dor.

O grupo musical português Trovante musicou o soneto “Ser poeta”, incluído na sua obra prima Charneca em Flor, publicada já depois da sua morte. A canção intitulada “Perdidamente“, com música de João Gil, tornou-se numa das músicas mais populares da banda. Faz parte do álbum Terra Firme, lançado em 1987.

Imagem retirada em: http://www.laparola.com.br/florbela-espanca-a-poetisa-eleita

Homenagem ao poeta Fernando Pessoa

Nota: imagem retirada da internet.

Quem não ouviu falar de Fernando Pessoa – Aqui e Ali todos tem a sensação de conhecer este grande poeta.

O maior escritor português do século XX nasceu a 13 junho de 1888 e morreu no dia 30 de novembro de 1935, com 47 anos de idade.

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.

Aqui e Ali a espalhar a mensagem da verdadeira filosofia de vida tal como o poeta Fernando Pessoa nos deixou escrito – trabalhar com nobreza, esperar com sinceridade e sentir as pessoas com ternura.

“A Verdadeira Filosofia de Vida
Trabalhar com nobreza, esperar com sinceridade, sentir as pessoas com ternura, esta é a verdadeira filosofia.

1 – Não tenhas opiniões firmes, nem creias demasiadamente no valor das tuas opiniões.
2 – Sê tolerante, porque não tens certeza de nada.
3 – Não julgues ninguém, porque não vês os motivos, mas sim os atos.
4 – Espera o melhor e prepara-te para o pior.
5 – Não mates nem estragues, porque não sabes o que é a vida, exceto que é um mistério.
6 – Não queiras reformar nada, porque não sabes a que leis as coisas obedecem.
7 – Faz por agir como os outros e pensar diferentemente deles.”

Fernando Pessoa, ‘Anotações de Fernando Pessoa (sem data)’

Curiosidades – leia e leve

  • No dia anterior à sua morte, tinha escrito a sua última frase, em inglês: “I know not what tomorrow will bring” (“Não sei o que o amanhã trará”).
  • Deixou um imenso legado, escreveu o seu primeiro poema aos sete anos de idade e nunca mais parou de escrever até ao seu leito de morte.
  • O poeta foi filósofo, ensaísta, tradutor, crítico literário e muito mais.
  • Publicou 4 obras em vida das quais 3 são escritas em inglês.
  • Escreveu com vários nomes, os heterónimos mais conhecidos são – Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro.
  • Aconteceu em 1988 a confirmação do reconhecimento que não obteve em vida – o seu corpo foi trasladado para o Mosteiro dos Jerónimos, por ocasião do seu centenário de nascimento.

Inspire-se, Sinta, Leia e Leve

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.

“Tudo vale a pena se a alma não é pequena”