Menina estás à janela

Menina estás à janela.

Menina estás à janela
com o teu cabelo à lua
não me vou daqui embora
sem levar uma prenda tua

Sem levar uma prenda tua
sem levar uma prenda dela
com o teu cabelo à lua
menina estás à janela

Os olhos requerem olhos
e os corações corações
e os meus requerem os teus
em todas as ocasiões

Menina estás à janela
com o teu cabelo à lua
não me vou daqui embora
sem levar uma prenda tua

Sem levar uma prenda tua
sem levar uma prenda dela
com o teu cabelo à lua
menina estás à janela

Vitorino

Um dizer ainda puro

“diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.”

Um dizer ainda puro
imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

Vasco Gato

Sentam-se ao colo do pai. É a ternura que volta

Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta

Os Putos

Uma bola de pano, num charco
Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr, um arco
O céu no olhar, dum puto.

Uma fisga que atira a esperança
Um pardal de calções, astuto
E a força de ser criança
Contra a força dum chui, que é bruto.

Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.

As caricas brilhando na mão
A vontade que salta ao eixo
Um puto que diz que não
Se a porrada vier não deixo

Um berlinde abafado na escola
Um pião na algibeira sem cor
Um puto que pede esmola
Porque a fome lhe abafa a dor.

José Carlos Ary dos Santos

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Os putos – por Carlos do Carmo

Um mudo imperfeito onde “tudo está por fazer”

Há que fazer ainda muitas coisas: … Sacudir as asas e pintá-las de novo
Com as cores que nos empresta o dia. …

Há que fazer ainda muitas coisas:
Varrer o pátio,
Regar as margaridas,
Sacudir as asas e pintá-las de novo
Com as cores que nos empresta o dia.

Tocar guitarra
e lançar ao vento as sementes
e aconchegar num altar secreto
as tristezas novas que nos guarda o dia.

Há que fazer muitas coisas:
retomar a canção velha e perdida,
beber as suas águas, caminhar na sua terra
enquanto sabemos que é nosso o dia.

E aprisionar a sombra
(ela sofre pesadelos tremendos),
é nostálgica e cheia de loucuras;
torna-nos trágicos a metade dos dias.

Há que fazer muitas coisas!
Abrir o sol, abrir os cortinados
que já teremos tempo suficiente
para beber as sombras quando acabe o dia

Matilde Casazola

Imagem retirada da Web em: https://www.consuladodebolivia.com.ar/2016/12/21/vida-obra-matilde-casazola-mendoza/